Ex-Vasco, Lucas Santos critica racismo institucional: “Violência é direcionada a negros e pobres”


Foi nas ruas da comunidade Para-Pedro que o menino Lucas Santos deu seus primeiros chutes na bola. Também foi na comunidade, situada na Zona Norte do Rio de Janeiro, que percebeu, ainda jovem, a desigualdade que marcava a vida dos que estavam à sua volta. Assim, o meia começou a moldar seu caminho como jogador de futebol e também sua consciência de classe e de raça.

Coincidentemente, Lucas foi criado no Vasco, clube que tem um belo capítulo de pioneirismo na aceitação de negros gravado em sua história. Cercado pela questão racial em diversos aspectos da vida, o meia impressiona pelo discurso firme, mesmo com tão pouca idade.

Aos 20 anos, Lucas Santos viu sua fala viralizar ao se posicionar, com um discurso contundente, contra um tipo de racismo muitas vezes invisibilizado no Brasil: o institucional. Em outubro deste ano, o meia repudiou a morte do mototaxista Kelvin Gomes Cavalcante, de 17 anos, baleado dentro de uma barbearia na comunidade de origem de Lucas durante uma ação da polícia.

– Vi algumas vezes (casos de violência policial), mas não tanto quanto está acontecendo agora. Não só na Para-Pedro, mas em outras favelas do Rio, a gente vê a forma como abordam as pessoas, o tanto de erros cometidos por eles. (Essa violência) Está direcionada a uma classe social e uma raça: aos negros e pobres, que são maioria nas favelas brasileiras. São trabalhadores, pessoas inocentes, crianças. É uma série de despreparo que a Polícia Militar vem mostrando. E cada vez mais inocentes, pobres e negros morrem – disse Lucas em entrevista ao GloboEsporte.com.

Segundo dados mais recentes do Atlas da Violência, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. Além disso, o Rio de Janeiro é o estado com a maior índice de mortes por policiais: 8,9 a cada 100 mil, de acordo com o Monitor da Violência, parceria do G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

“Cada vez mais o genocídio (negro) vai aumentando. Falam que foi por engano, por ter confundido, mas só acontece quando são pessoas de pele negra, pobres e de comunidade”.

Lucas Santos sabe bem quais obstáculos um jovem negro e periférico tem pela frente. A oportunidade de participar de um projeto social e, em seguida, fazer um teste no Vasco, onde chegou aos cinco anos, fez com que ele conseguisse alcançar o sonho de se tornar jogador de futebol. O caminho, no entanto, não foi fácil. O jovem contou com o revezamento entre familiares para que pudesse cumprir a rotina em três turnos: ir à escola pela manhã, ao treino de futebol à tarde e ao de futsal à noite.

Hoje no CSKA, Lucas leva a Para-Pedro no coração, mesmo com um oceano de distância de sua terra natal. O meia conta que visita a comunidade sempre que é possível e faz questão de ressaltar que a favela vai muito além do que diz o senso comum.

– Quando você fala da favela fora dela, só de você pronunciar as pessoas já mudam a expressão. Quem não conhece acha que lá só tem violência, mas na verdade não é dessa forma. Há um preconceito grande.

Com ajuda do brasileiro naturalizado russo Mário Fernandes, o jogador se diz adaptado à Rússia e elogia a recepção que teve no clube. Apesar dos frequentes casos de racismo no futebol russo, acredita que nunca foi alvo de ofensas, mas destaca que já percebeu ter recebido olhares diferentes em lugares como shoppings e restaurantes.

Ciente da visibilidade que os jogadores de futebol têm, Lucas acredita que os colegas de profissão devem usar a influência e a voz que têm para dialogar sobre a questão racial e a luta pela igualdade.

“Há lutas que não podem deixar de ser combatidas. Isso é um gigante enorme que a gente precisa enfrentar. Não só na questão do preconceito racial, mas também o de gênero… Qualquer tipo de preconceito deve ser combatido”.

Fonte: globoesporte

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