Perdendo a memória, Sérgio Noronha, ex-Globo, recebe apoio do amigo Arnaldo e carinho no Retiro dos Artistas


Angélica Jordan telefonou para o amigo Sérgio numa tarde qualquer de 2015 para bater papo e logo ficou preocupada com o que ouviu de Lena, funcionária dele. O compadre, padrinho de sua filha, havia saído para uma sessão de ginástica algumas horas antes e não deu mais sinal.

Depois de alguma apreensão, Sérgio enfim apareceu em casa, dizendo à funcionária que tinha esquecido o que aconteceu. Se soube depois, através de relatos de conhecidos: o amigo de Angélica havia sofrido um apagão repentino de memória e perambulou meio sem rumo por Ipanema, bairro onde morava no Rio.

A amiga, então, marcou um geriatra para Sérgio, que teve identificado outro problema: uma retenção de líquido na bexiga. Ele acabou internado e lidou com complicações, como uma embolia pulmonar. Só recebeu alta dois meses depois.

Desde então, nunca mais foi o mesmo. Sérgio Noronha, uma das vozes mais conhecidas da crônica esportiva brasileira, começava a ceder ao Mal de Alzheimer. A memória privilegiada que tinha catalogada lembranças valiosas do futebol nacional aos poucos se enfraquecia.

Quem é Noronha

O carioca Sérgio Barros de Noronha é uma das referências da crônica esportiva do Rio de Janeiro, com serviços prestados a várias empresas de comunicação. O veterano de 86 anos manteve um espaço no Jornal do Brasil por anos, mas foi no rádio em que chegou ao gosto popular.

Noronha trabalhou nas rádios Jornal do Brasil, Globo e Tupi numa era romântica do futebol carioca, comentando jogos do Flamengo de Zico, do Vasco de Dinamite e do Fluminense de Rivellino. Na televisão, integrou diversas mesas redondas, a mais célebre delas na TV Corcovado.

Por muitos anos, esteve ligado ao grupo Globo, onde comentou a Copa de 1982, por exemplo. Voltou à emissora já veterano para acompanhar o futebol carioca, com participações também no SporTV. No fim da carreira, “Seu Nonô”, como é popularmente conhecido, passou pela Band.

Arnaldo, o amigo “anjo da guarda”

Durante a transmissão de um Fla-Flu de 2005 na Globo, Sérgio Noronha discutiu com o colega Arnaldo Cezar Coelho por discordarem da avaliação da arbitragem. Mas este foi um episódio isolado em uma longa amizade, nascida nas ruas do bairro da Urca, antes mesmo de o futebol aparecer mais seriamente na vida de ambos.

Arnaldo, desde o começo, acompanhou a batalha de Noronha contra o Alzheimer. O ex-árbitro foi o responsável por levar o jornalista ao Retiro dos Artistas, onde vive sob cuidados desde 2018.

“Um dia me procuraram: ‘Ó, Arnaldo, aconteceu isso e isso, acabou o dinheiro’. Eu sou muito amigo dele, ele está com Alzheimer e o Sergio me conhecia na praia quando eu comecei. Aí eu falei com o Stepan Nercessian, presidente do Retiro dos Artistas, para ele conhecer o Noronha. Pegamos uma casa numa vila lá. Eu reformei a casa toda, com ar condicionado, geladeira. Aí todo mês eu ajudo, ele não tem família para ajudar”, contou Arnaldo à reportagem.

“Foi o amigo que pleiteou a vinda dele para cá, é o amigo que mais vem aqui visitá-lo”, relatou Cida Cabral, administradora do Retiro dos Artistas, que fica na zona oeste do Rio de Janeiro.

“A iniciativa foi do Arnaldo. Há algum tempo a gente está abrindo a possibilidade de não só receber atores, tanto é que tem gente da música, das artes plásticas. Falei para o Arnaldo: estou à disposição. O Sergio faz parte da história da crônica esportiva, um jornalista por quem sempre tive uma relação cordial, sou admirador. Foi um prazer recebê-lo”

Stepan Nercessian

Stepan Nercessian, ator e presidente do Retiro dos Artistas

Sem família próxima e com problemas financeiros

A aparição dos problemas de saúde coincidiu com o agravamento da situação financeira. Sérgio Noronha não contava com nenhum familiar próximo, acabara se distanciando de uma cunhada, casada com o irmão Sidney, que faleceu muito cedo. Foi então que os amigos precisaram intervir.

“Ele se aposentou com aquele ‘salariozinho’. Vendeu um apartamento na Barra, e o gerente do banco falou o seguinte: ‘Aplica o dinheiro, mais o dinheiro da aposentadoria e você vai vivendo’. Só que ele morava em Ipanema, num apartamento alugado, e o dinheiro do banco acabou”, contou Arnaldo Cezar Coelho.

“O Sergio adorava Ipanema, o negócio dele era Ipanema. Ele não queria saber de Barra da Tijuca. Então, não é que ele tenha perdido. O Sérgio deixou de ter as coisas ao longo da vida, porque ele gostava de sair, de frequentar bons lugares, de se vestir muito bem. Ele não teve muito cuidado com investimento”, detalhou a amiga Brenda Mariano de Campos.

Deprimido após demissão da Globo 

Sérgio Noronha teve durante a carreira uma longa relação com o grupo Globo. Em 1982, foi emprestado pela TV Educativa para comentar a Copa da Espanha. Três anos mais tarde, chefiou a editoria de Esporte da emissora. Por muito tempo, também atuou na Rádio Globo do Rio. Em 1999, voltou à telinha e participou de transmissões dos Mundiais de 2002 e 2006.

O último momento da relação de Noronha com a empresa foi em 2011, quando comentou partidas através do canal Premiere, no sistema pay-per-view. Depois, o veterano acabou preterido por profissionais mais jovens. A perda de espaço não foi bem digerida, como conta a amiga Márcia Miranda.

“Quando ele foi mandado embora da Globo, foi caindo, porque ele não se conformava com aquilo. Ele me disse: ‘Pô, Marcinha, vê se pode um negócio desse, me tirar para colocar estes rapazotes novos que trabalham de tênis e calça jeans. Eu ia de terno'”, relatou a amiga de Noronha. “Enfim, ele ficou muito triste com isso. Então, essa demissão da Globo fez ele cair, porque quem está na Globo é visto”, acrescentou.

Galvão indicou Noronha para a Globo em 1999

O momento de maior exposição da carreira de Sérgio Noronha aconteceu já na fase madura, quando passou a comentar futebol em TV aberta para todo o país. Aconteceu graças à intervenção do amigo Galvão Bueno, em 1999. Os dois comunicadores trabalharam juntos na Globo na Copa de 1982 e desde então o narrador guardou a admiração pelo comentarista.

“Falo do Sérgio Noronha com muita emoção. O Noronha é um grande amigo, aprendi muito com ele. Formamos uma dupla na Copa de 82, eu muito jovem, muito ansioso. Foi a única Copa em que não fiz jogos do Brasil, mas era justo que fosse o Luciano do Valle naquele momento. Todo jovem é ansioso, e o Noronha me dizia: ‘Calma, vamos fazer um belo trabalho’. E o trabalho foi muito reconhecido. Foram muitas viagens e tantas e tantas horas de conversa”, afirmou Galvão ao UOL Esporte.

“O Sergio Noronha foi um grande comentarista, um grande cronista, um cronista do esporte, mas um cronista do cotidiano também. Bom falar dele e expressar a minha admiração, minha amizade e minha gratidão por tudo o que eu aprendi com ele”, concluiu o narrador da Globo.

O sentimento de afeto sempre foi recíproco. Noronha costumava dividir a admiração por Galvão em conversas com amigos. “O Galvão foi o canal de ida, quando, mais ou menos em 1999, estava terminando o contrato do Sergio na Rádio Globo, sem saber se iam renovar ou não. Eu fui uma das primeiras pessoas que ele contou isso. Me contou super animado”, relembrou a amiga Soraya Muniz.

Em entrevista à revista Playboy em 1994, Galvão Bueno citou Sérgio Noronha como o seu comentarista preferido (reprodução abaixo).

Texto culto e radialista popular 

Em 1954, Sérgio Noronha trabalhava como um office-boy na redação da revista O Cruzeiro, quando ganhou uma chance de atuar como redator. Era o começo de uma carreira sempre agitada, com passagens pelos jornais Correio da Manhã e Diário Carioca. Em 1970, o jornalista já brilhava no Jornal do Brasil, na companhia de feras da época, como Armando Nogueira.

Desde então, Noronha foi uma referência de texto esportivo, mesmo antes de empunhar microfones em transmissões. Quando, enfim, chegou ao rádio, se destacou após um breve período de adaptação.

“Ele foi contratado para ser comentarista quando o João Saldanha saiu. A Globo contratou o Sergio Noronha para ser o principal comentarista. Durante uns períodos, ele tinha muita dificuldade, nunca tinha trabalhado como um cara de fala em rádio, tinha certa dificuldade em verbalizar, em entrar no ritmo. Demorou uns seis meses, mais ou menos, mas começou a deslanchar. Começou a mostrar o lado dele de conhecedor de futebol. Ele tem um humor muito fino, foi um sucesso”, relembrou o narrador e amigo Edson Mauro.

Odiava o apelido “Seu Nonô” 

Tanto as torcidas do Rio de Janeiro quanto os colegas mais próximos de profissão se referem a Sérgio Noronha como “Seu Nonô”. É um apelido carinhoso que pegou no rádio, mas que não agradava muito ao homenageado em questão.

“O negócio do Seu Nonô foi o (radialista) Jorge Curi que botou. Ele dizia assim: ‘E agora vem aí o Sérgio Noronha. Fala, Seu Nonô’. Porra, o Noronha ficou louco, mas aí todo mundo começou a chamá-lo. Os caras da rádio, para sacanear ele desse negócio, que todo mundo sabia que ele não gostava, fizeram uma vinheta cantada. Botavam no intervalo dos jogos”, recordou o narrador Edson Mauro.

“Todo mundo na rádio chamava ele de Seu Nonô, todo mundo que trabalhou com ele começou a chamá-lo de Seu Nonô. Aí um dia eu cheguei na casa dele e falei: ‘Como é que você está, Seu Nonô?’. Aí ele olhou muito sério para mim e falou: ‘O meu nome é Sergio Noronha'”, contou a amiga e jornalista Cláudia Vieira Levinson.

Garotinho levou amigo para a Band

Após a demissão da Globo em 2009, Noronha encontrou ajuda de um outro nome icônico do rádio carioca. O narrador José Carlos Araújo, o “Garotinho”, indicou o veterano comentarista para o time da TV Bandeirantes.

“Quando ele foi demitido da TV Globo, arrumei emprego para ele. Falei com o Luciano do Valle e coloquei na Band. Foi o último emprego dele como comentarista, na Bandeirantes aqui no Rio de Janeiro. Foi demitido quando contrataram o Edmundo. Preferiram ex-jogadores”, contou Araújo. “Mas o Noronha foi um profissional muito isento, muito equilibrado, muito imparcial”, completou Garotinho, atualmente na Super Rádio Tupi.

Quando a memória começou a falhar 

Antes do diagnóstico de Alzheimer aparecer, Noronha mantinha uma vida normal, com atividade social intensa junto aos amigos. Foi numa dessas ocasiões que um lapso de memória assustou o velho colega de rádio Edson Mauro.

“O meu último contato com ele foi um almoço que eu o convidei. Ele e o Celso Itiberê, que foi editor de O Globo. Fui levar o Noronha em Ipanema e, quando a gente entrou no carro, o Noronha olhou para mim e falou: ‘Como é mesmo o nome desse rapaz (Celso Itiberê)?’. Aí eu falei: ‘Pô, Noronha, é o Celsinho, o nosso irmão’. Aí ele veio calado até o final. Na hora em que saiu do carro, me cumprimentou como se não me conhecesse, bem formal”, relembrou o narrador de rádio.

Hoje em dia, o antigo comentarista da Globo apresenta raros momentos de lucidez, principalmente com memória de acontecimentos passados. Mas o presente surge bastante confuso.

“Ele sente muita necessidade de onde morava, fica perdido, tudo para ele é novo, não reconhece. Pergunta: ‘Aonde eu estou?’. Eu falo: ‘Você está no Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá’. Ele diz: ‘Você está louca que eu estou em Jacarepaguá’. Essas coisas”, descreve Azenilda Maciel Machado, que foi cuidadora de Noronha por alguns meses.

“Eu ligo para ele e pergunto como é que ele está, para ver se ele lembra quem eu sou. Eu falo o meu nome: ‘É a Lena, trabalhei tanto para ti, o senhor não vai me esquecer, hein?’. Ele fala que claro que lembra, mas eu creio que nem lembra mais”, disse a ex-funcionária.

A rotina atual no Retiro dos Artistas 

Sérgio Noronha leva uma rotina pacata nas dependências do Retiro dos Artistas. Depois de um período em que sofreu algumas quedas, passou a ter acompanhamento mais próximo. Frequentemente, recebe visitas de amigos. Uma presença constante é Vera, ex-governanta de Soraya Muniz, amiga do jornalista.

Outra visitante regular é a jornalista Cláudia Vieira Levinson:

“Ele dizia que sentia falta de alguma coisa de jornal, porque ele gostava de ler jornal e gosta de futebol. O Lance! não tem mais assinatura no papel, só no digital. Eu não posso fazer porque ele não consegue ler em tablet. A primeira coisa que ele disse foi: ‘Eu quero jornal’. Eu fiz uma assinatura do Globo para ele'”.

O carinho de ex-mulheres e amigas

Já sem a memória de boa parte da vida, Sérgio Noronha mantém o carinho de gente que desfrutou de sua companhia, como ex-mulheres e amigos.

“O Sergio foi uma pessoa importantíssima na minha vida. Eu fui casada com ele por 14 anos, eu estou separada do Sergio há 31 anos. Eu visito o Sergio eventualmente. É uma pessoa incrível, grande jornalista, um ser humano da melhor qualidade”, afirmou a ex-esposa Nailze Marques.

“Ele falava que eu era o grande amor da vida dele e eu me encantei com o Sergio. O Sergio é uma pessoa de uma inteligência, de uma carisma e de uma simpatia”, disse a amiga Soraya Peixoto Muniz.

“Não tive a oportunidade de vê-lo lá no Retiro dos Artistas. Uns quatro anos atrás, o Sergio esteve mal, ficou internado. Nós estivemos lá, eu e a minha filha Adriana. Ele demonstrou muito carinho pela gente. Tive poucos contatos com ele nesses 35 anos em que morei em São Paulo, mas tenho muito carinho por ele”, manifestou Célia da Costa Barros de Noronha, cunhada do jornalista.

“Eu e o Sergio vivemos numa época de anos dourados e é só saudade boa. Lamento que ele não tenha mais essa capacidade, porque era uma inteligência, um sacana, um sarcástico, ele era de um bom humor danado, apesar de ser mal-humorado. Mas ele era uma pessoa de fácil acesso, de muita alegria, de uma convivência muito legal”, relembrou Eloá Dias, primeira esposa de jornalista.

Fonte: UOL

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