Feminino: Treinadora Helena Pacheco fala sobre apoio de Eurico à modalidade e acolhimento a Marta no Vasco

Eurico Miranda é talvez um dos nomes mais polêmicos do futebol brasileiro. Um homem arrogante, centralizador, que despertava a maior dicotomia de sentimentos possível nos torcedores vascaínos. Não havia meio termo com Eurico, era amor ou ódio. Um cara que fez muito pelo seu clube do coração, para o bem e para o mal.

Um amigo vascaíno definiu muito bem essa peculiaridade de Eurico: ele proporcionou ao clube seus melhores e piores momentos nos últimos 40 anos. E entre tantas as críticas que se precisa fazer a ele, há aqui um aspecto de sua vida que pouca gente conheceu.

Eurico Miranda foi o responsável por levar o futebol feminino ao Vasco. Por mais incrível que possa parecer, foi por causa dele que o clube investiu e se tornou referência quando a modalidade ainda engatinhava no Brasil. Quem conta essa história – que também tem seus pontos polêmicos – é Helena Pacheco, treinadora do time feminino do Vasco à época, aquela que descobriu o talento de Marta nos anos 2000.

Helena Pacheco, ex-treinadora do time feminino do Vasco da Gama (Foto: Renata Mendonça/dibradoras)

“Um sócio do clube viu o time de futsal que a gente tinha na Tijuca, e resolveu mostrar a ideia para o Eurico. Isso era fim da década de 1980. O Eurico gostou e levou a gente para o clube. Deu estrutura, investimento e apoiou o trabalho. Aí o time começou a se destacar e muitas das minhas jogadoras foram convocadas para a Copa do Mundo de futebol feminino, só que era no campo. O Eurico não entendeu nada: como as jogadoras do futsal vão jogar no campo? E eu expliquei para ele que campo exigia mais investimento e tudo mais. Ele disse: vamos fazer”, contou Helena em entrevista às dibradoras.

Eurico era diretor de futebol do Vasco na época e já detinha bastante poder. “Mandão”, como sempre foi, tudo o que ele queria, acontecia. E foi assim que nasceu o time de futebol feminino do Vasco no campo, na década de 1990. O time vencia tudo o que disputava e se tornou referência na modalidade. E Eurico, falastrão como sempre, aproveitava isso para provocar os rivais – algo que acabou servindo de incentivo para que eles também investissem no futebol feminino.

“Ele queria incentivar a rivalidade. E incentivava os outros a terem na base da briga. Era uma forma de provocar os outros, então ele dizia: ‘vocês não vão fazer? Estão com medo da gente?’. Mas assim as coisas andaram. Além disso, o Vasco estava sempre na mídia, o Eurico tinha poder político e usava isso pra conseguir transmissões, cobertura e tudo mais”, pontuou Helena.

O jeito centralizador do cartola fez muito mal para o Vasco, mas no caso do futebol feminino, ajudou um pouco o trabalho de Helena. Isso porque normalmente a modalidade acaba escanteada nos clubes, sem que os dirigentes que realmente mandam se importem com ela. No Vasco, a técnica podia falar diretamente com Eurico e ele sempre resolvia tudo.

“Ele era bastante centralizador, mas se você conseguisse convencê-lo, ele comprava a ideia. No futebol feminino é muito difícil ter essa interação direta com o diretor de futebol, mas com Eurico acontecia. Eu explicava pra ele: nós temos um time feminino, precisamos de ginecologista. E ele entendia, era óbvio que precisava. E conseguia isso para nós. O Eurico teve muitos defeitos para o Vasco, mas para o futebol feminino ele foi importante”, destacou a ex-treinadora.

Nos tempos em que foi deputado, Eurico aproveitou também o futebol feminino do Vasco para fazer agrados políticos que acabaram beneficiando a modalidade. Recebendo muitos pedidos para o clube abrir portas para peneiras ao redor do país – o Vasco tinha bastante visibilidade, e isso fazia com que fosse o centro das atenções na modalidade -, o dirigente pediu a Helena que criasse a categoria de base feminina no clube.

E deu a ela um investimento que permitisse acolher, inclusive, meninas vindas de outros estados. Eurico viabilizou um patrocínio para isso e construiu em São Januário uma espécie de vila olímpica onde as atletas da base poderiam morar. Foi isso que acabou permitindo que Marta ficasse no Vasco quando, aos 14 anos, ela chegou de Dois Riachos (AL) para um teste no clube.

Mas é claro que a lua-de-mel de Eurico Miranda com o futebol feminino chegaria ao fim. Diante da crise pela qual passou o clube no fim da década de 1990, incluindo um grande endividamento, a arrogância do cartola pesou para que o fim do investimento vascaíno na modalidade acabasse de forma melancólica.

“Nessa época, ele foi vaidoso. Quando eu vi que a situação do clube estava piorando, eu falei pra ele para acabarmos com o adulto e só ficar com a base, sub-17, sub-20, porque diminuiria os gastos. Ele não quis, ele queria continuar com adulto. Foi prepotente nessa hora e isso prejudicou o Vasco e também as meninas, porque elas não recebiam e queriam ir pra outros clubes. Aí tive uma conversa mais incisiva com ele, que não gostou, mas eu implorei pra ele liberar as meninas adultas irem embora. Acabou liberando a contragosto e depois disse que em seis meses acabaria também com a base. Aí começamos a tentar colocar as jogadoras em outros lugares, mas as que não conseguiam foram ficando em São Januário, pelo menos tinham onde dormir e o que comer. Mas isso deveria ter sido feito com mais critério”, observou Helena Pacheco.

Como técnica e incentivadora do futebol feminino, Helena é grata a Eurico pelo que ele fez pela modalidade. Ela descreve: “os benefícios, nesse caso, foram maiores que os danos”. Mas a visão dela como vascaína e como amante do futebol é um pouco diferente.

“Como torcedora do Vasco, eu acho que no final, a gestão dele foi muito ruim para o Vasco. Ele brigou muito pelo clube, mas depois esse comportamento acabou despertando a raiva das pessoas contra o Vasco, não contra o Eurico. Essa é a parte pior. O Vasco não é o Eurico, ele esteve com Eurico. Ele nunca vai ser maior do que o Vasco”, avaliou.

“O que não cabe mais no futebol é você ser centralizador de tudo, você tem que delegar, colocar pessoas de qualidade ao seu redor, e ele não fazia isso. Eurico não cabe no futebol profissional hoje”, finalizou.

Fonte: Blog Dibradoras – UOL

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