Clubes brasileiros apostam em bancos digitais e patrocínios variáveis. O que pode dar errado?


Corinthians, Atlético-MG e Cruzeiro foram os primeiros a anunciar patrocínios com bancos, dos quais grande parte da receita a ser obtida será variável. Vasco e Santos ainda negociam e podem reforçar a quantidade de times da primeira divisão a aderir ao modelo. Há duas tendências aí. A primeira é a entrada de bancos de natureza digital em substituição à Caixa nas camisas. A segunda é o caráter “meritocrático” da remuneração. Dá para contar com uma grana considerável? Ou, concretamente, dá para esperar que ganhem tanto quanto o Palmeiras com a Crefisa – como sugeriu o diretor cruzeirense Sérgio Nonato?

Esses patrocínios não seguem a lógica tradicional do mercado, em que empresas pagam clubes para expor marcas em uniformes a troco de visibilidade. A remuneração está vinculada aos lucros obtidos com determinados produtos financeiros, o que faz das agremiações sócias das companhias, na prática, em vez de meras patrocinadas.

As perspectivas mudam de clube para clube, porque os bancos personalizados seguem fórmulas diferentes para ganhar dinheiro. Enquanto o Digimais Cruzeiro, do Banco Renner, cobra tarifas a partir de R$ 9,90 por mês, o Meu Corinthians BMG não cobra nada dos clientes pela abertura da conta corrente. Isso fará toda diferença na hora de determinar o potencial de arrecadação de cada negócio.

Ao Cruzeiro, basta que os torcedores abram as contas e paguem as mensalidades para que o patrocínio comece a render. Dirigentes celestes disseram na apresentação do parceiro, em entrevista coletiva, que têm como meta a abertura de 1 milhão de contas. Vamos começar por aí.

Hipoteticamente, se todas elas aderirem ao pacote básico de R$ 9,90, haverá uma receita bruta de R$ 119 milhões na temporada. Deste valor, serão descontados custos e impostos. O que sobrar é dividido por dois. Metade para o Cruzeiro, metade para o Renner. Na expectativa de que valores cresçam conforme cruzeirenses usarem produtos financeiros.

O negócio do Corinthians é mais complexo porque, uma vez que não há cobrança de tarifas, a diretoria alvinegra pode conseguir a mesma quantidade de contas abertas, 1 milhão, e isso não gerará receita nenhuma. Clientes precisarão pegar dinheiro emprestado e pagar juros por ele, e só então algum trocado entrará no caixa do clube.

O produto queridinho do BMG é o cartão de crédito consignado, cujas parcelas são abatidas diretamente com o salário do sujeito, sem que ele tenha a opção de não pagar, assim como acontece com um empréstimo consignado. Da receita obtida com essas operações de crédito também serão descontados custos e impostos. O lucro é que se divide.

Custos não são desprezíveis. Apesar do senso comum de que todo banco tem cofres gigantescos e abarrotados de grana nos fundos, a real é que instituições financeiras não têm o dinheiro que emprestam. Elas entregam R$ 1 ao cliente com taxa de CDI + 10%, digamos, ao mesmo tempo em que pegam R$ 1 emprestado com outro banco e taxa de CDI + 2%. É na diferença entre as duas taxas que ela ganha dinheiro. Isso se chama spread bancário. E o que quer dizer? Que além da dificuldade de fazer o torcedor abrir a conta e pegar dinheiro emprestado, ainda há uma operação custosa por trás para fazer a máquina funcionar.

Clubes terão de convencer torcedores a pagar taxas e juros de produtos financeiros, senão ficarão sem a receita sonhada com o patrocínio
Engajamento e portabilidade: mais dificuldades
Dirigentes têm o costume de se basear em supostos tamanhos de torcidas na hora de calcular possíveis ganhos. Wagner Pires de Sá, presidente do Cruzeiro, falou em 10 milhões de cruzeirenses na entrevista coletiva de apresentação do patrocínio. Número que faz a projeção de 1 milhão de contas abertas no Digimais parecer factível.

O histórico do futebol recomenda parcimônia, no entanto. Tamanhos de torcidas são estimados por meio de pesquisas por amostragem, nas quais a pessoa se identifica torcedora desse ou daquele time. Não quer dizer que ela consuma produtos ligados a ele. Nem sequer que o acompanhe. Programas de sócios torcedores, produtos licenciados, todos sempre mostram números realizados abaixo dos sonhados.

Ainda há a dificuldade de fazer com que alguém mude de instituição financeira. Por comodidade ou confiança adquirida ao longo do tempo, além dos benefícios e taxas, não é comum gente trocar de banco como muda de sapato. Faz sentido para banqueiros a aproximação ao futebol, como tentativa de apelar ao lado emocional para fãs que migrem contas. Não fará diferença para o torcedor que não dá tanta bola assim.

Nenhum desses desafios invalida a tentativa. Contratos de patrocínio com remuneração variável, na pior das hipóteses, farão com que dirigentes trabalhem em prol das empresas que os patrocinam. Isso tende a ser produtivo, à medida que outros setores, hoje distantes do futebol, podem se interessar por ele a partir de um caso bem sucedido. A sugestão é por cautela. Se tudo der certo, o banco digital do seu clube de futebol vai levar tempo para maturar e se tornar realmente rentável.

PS.: Este jornalista tomou aulas sobre bancos com Cesar Grafietti, ex-superintendente de crédito do Itaú BBA, hoje consultor da CBF.

Fonte: globo.com

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