O lançamento da camisa III e a agressão à história do Club de Regatas Vasco da Gama

Conforme amplamente divulgado, inclusive no portal do Vasco da Gama (para consultar acesse aqui), hoje haverá o lançamento da terceira camisa no jogo contra o Bahia.

Na notícia se lê que a nova camisa é “cercada de simbologia e história”. De fato. Seria perfeito, não fossem as referências estampadas no uniforme inconciliáveis.

Explico: a camisa faz referência a dois episódios. O primeiro deles são as “grandes navegações” e o segundo são as “camisas negras”.

As grandes navegações, iniciadas pelos idos do século XV e protagonizadas, dentre outros, pelo personagem que dá nome à nossa amada instituição, implementou um regime elitista e escravocrata no Brasil, que só foi abolido, como sabemos, em 1888. Obviamente não se trata aqui de criticar o movimento histórico das descobertas, uma vez que é algo datado, de modo que aqueles portugueses que ingressaram em terras tupiniquins pensavam de acordo com o seu tempo.

Já no que diz respeito ao movimento “camisas negras”, ocorrido cinco séculos mais tarde, também teve a participação de portugueses, mas dessa vez em oposição àquele regime implantado pelas grandes navegações. Ou seja, tratava-se de um movimento que lutava pela inclusão dos negros e pobres no futebol, combatendo o racismo oriundo da escravidão e mesmo à elitização do futebol, que obviamente deita raízes naquele período mencionado acima.

Nessa linha de raciocínio, portanto, não é difícil perceber que as referências utilizadas na camisa são diametralmente opostas e mesmo inconciliáveis – as grandes navegações estimulavam o comércio de negros, ao passo que camisas negras lutavam contra os sórdidos efeitos da escravidão – de tal sorte que nunca apareceram juntas na história do Vasco. Houve momentos em que se exaltaram as grandes navegações e outros nos quais se homenageou a luta contra o racismo, mas sempre de forma separada e guardando suas especificidades, como deve ser.

A nossa história precisa ser tratada com carinho e sobretudo ser respeitada, razão pela qual fica aqui minha nota de repúdio contra esse ato descuidado do marketing do Club de Regatas Vasco da Gama ao reunir de forma irresponsável referências que não guardam a menor relação entre si, sendo mesmo opostas simbolicamente, o que denota profundo desconhecimento não só da história do Vasco, mas do nosso país.

Saudações Vascaínas.

Jefferson Barreto, carioca, suburbano e cervejeiro é advogado, historiador, administrador do Grupo Vascaínos Unidos e Vascaíno inveterado.

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