Ex-vilão após 7 a 1? Filha de Barbosa relata episódios constrangedores que goleiro passou

Uma falha que rendeu quase 50 anos de culpa. No país onde a pena máxima de prisão é de 30 anos, o goleiro Barbosa carregou uma cruz que jamais imaginou que carregaria. Em um Maracanã lotado, movido por mais de 200 mil vozes, ele não imaginaria que aos 34 minutos do segundo tempo, o uruguaio Alcides Ghiggia marcaria o gol que transformaria a final da Copa do Mundo de 50 no até hoje intragável ‘Maracanazo’. A derrota de virada do Brasil por 2 a 1 para o Uruguai acabou coroando o arqueiro como principal culpado. A história, porém, não é bem assim como garante a filha do ex-jogador multicampeão pelo Vasco da Gama, Tereza Borba, em entrevista exclusiva ao FOXSports.com.br.

Uma da únicas remanescentes da família, Tereza (55), que hoje vive em Praia Grande-SP, lembra da convivência com o pai, que na próxima sexta-feira (7) completa 17 anos desde sua morte, nos anos 2000. Levando consigo e preservando a história de Barbosa há mais de 20 anos, a filha lembrou daquele fatídico dia 16 de julho de 1950, que terminou em ‘tragédia’ no Rio de Janeiro. Ela apontou alguns fatores que contribuíram para a derrota da Seleção Brasileira.

“Eles estavam no Joá, na Barra, com todos os jogos ganhos, até o Barbosa cantava ‘Eu fui para a parada de Madrid, parará tibum’, porque tinham ganhado por 6 a 2 da Espanha, foram só vitórias, mas de repente mandaram tirá-los de lá, e ninguém entendeu, eles estavam lá, na sombra e água fresca, comida boa, não tinha jornalista, não tinha ninguém para perturbar, eles estavam muito bem concentrados. Tiraram eles, levaram para São Januário, lá eles ficaram enclausurados como animais, o Barbosa, por exemplo, comeu muito pouquinho, comeu uma folhinha de alface e um bife pequenininho, também a todo momento o chamavam para tirar fotos com políticos, candidatos à presidência, quer dizer, foram vários fatores para o Brasil ter perdido, mas ninguém conta essa história. Eles ficaram com fome, eles ficaram com sede, eles ficaram com sono, eles ficaram, cansados”, confidenciou a filha de Barbosa.

Tereza ainda lembrou que na véspera da decisão, o extinto Jornal Cor-de-Rosa, convidou o time brasileiro para uma foto, posteriormente manipulada, como ela mesma revela, onde foram inseridas faixas de campeões mundiais em cada jogador, como forma de afirmar que o Brasil seria campeão, antes mesmo de entrar em campo. A foto, que ganhou as manchetes, irritou o uruguaio Obdulio Varela, que tomou uma atitude para lá de inusitada.

“Quando o Varela (Obdulio), do Uruguai, viu aquele jornal ele falou para que todos os jogadores uruguaios fossem em todas as bancas de jornais, e trouxessem todos os jornais que eles pudessem para o hotel onde estava hospedada a Seleção, na Rua Paissandu, no Flamengo. Então eles foram para as ruas, para as bancas, para tentar achar esse jornal, e trouxeram todos aqueles que puderam. Daí o Varela forrou o hotel todinho com esse jornal, e falou para todos os jogadores: ‘Tenham brio na cara porque o jogo é só daqui a pouco, ninguém foi campeão ainda, a decisão será só depois, o jogo ainda não terminou, muito menos começou’. Então foi uma questão de honra para os uruguaios”, relembrou Tereza.

Por último, um fator que até hoje poucos conhecem: Barbosa previu a derrota antes mesmo do apito inicial. Segundo a filha do ex-goleiro, a primeira imagem que ele captou ao entrar em campo foi uma bandeira do Brasil de cabeça para baixo, o que de alguma forma o ‘intimidou’.

“O Barbosa me confidenciou que na hora que ele subiu as escadas do Maracanã, que ele olha para cima, ele vê a bandeira do Brasil de ponta a cabeça, quando ele viu aquilo ele falou: ‘Perdemos’. Ele pensou com ele na hora, não falou para ninguém”, revelou.

Após o apito final, Barbosa acabou ‘crucificado’. O arqueiro, que integrou o até hoje famoso ‘Expresso da Vitória’ do Vasco da Gama, elenco que foi multicampeão até o início dos anos 50, inclusive passou por algumas situações ‘constrangedoras’ após o ‘Maracanazo’, como lembrou a filha.

“Eu me lembro que ele me contou que um dia estava em uma padaria, uma senhora estava com a sua neta, e falou para a neta: ‘Olha, esse é o homem que fez o Brasil chorar’. E ele ficou muito triste porque ele estava sendo apontado para uma criança, e ele retrucou para a senhora: ‘Escuta, se eu fosse o seu filho, a senhora falaria da mesma forma?’, e a senhora abaixou a cabeça e foi embora. Falaram muitas coisas que ele ficou magoado, machucou ele, é lógico né”, confidenciou.

Por último, Tereza revelou que Barbosa jamais se sentiu culpado pelo lance, mas teve humildade para carregar toda a responsabilidade depositada em cima dele. Afinal de contas, a única cruz que ele sempre carregou, não foi a da ‘culpa’.

“As pessoas culpavam ele, mas ele não se sentia culpado porque ele tinha orgulho de ser vice. Ele mesmo falava: ‘A pena máxima do Brasil é de 30 anos, mas eu carrego quase 50’, mas não que ele carregasse, as pessoas que tentavam fazê-lo carregar. Mas a única cruz que o Barbosa carregou pela vida toda foi a cruz de malta, como ele mesmo sempre falou, e não a de Cristo que penduraram nele. A gente não via o Barbosa cabisbaixo, a gente não via o Barbosa chorando, se lamentando”, completou.

Fonte: Fox Sports

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